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terça-feira, 17 de abril de 2012
quarta-feira, 11 de abril de 2012
Nem vou discutir
nada tenho a comentar sobre isto
mas apenas digo, o meu ponto de vista pende deste lado
favor de ler o que escreveu Afonso Salcedo
Elevadores. Resposta a José António Saraiva.
Sim. Ando de elevador muitas vezes. Às vezes inclino a cabeça,
admito. Muitas vezes uso os braços de modo que ache confortável. Estas
coisas acontecem quando começo a pensar em coisas, ou observo o mundo ao
meu redor. Creio que algo bastante comum em qualquer pessoa que
trabalhe e passe a vida a criar mundos imaginários para cinema. Nasci
bom observador, admito que não por escolha, e tive a sorte de encontrar
maneira de ajudar a criar emoções e memórias através de imagens em
movimento.
Elevadores. Passagens tão temporárias e interessantes. Elevadores
sempre me fascinaram, por criarem um espaço forçado de observação. Tão
pequeno, mas cheio de detalhes. Quem veste o quê, quem olha para onde,
quem tosse quando.
Imagino ser aquele rapaz. Podia perfeitamente ser eu. Aliás, fui eu
há uns meses. Em Setembro. Estive em Portugal e trouxe o meu namorado
para ele conhecer a minha família, que tanto me adora e respeita, e
também para conhecer o país onde cresci, as ruas onde andei e os
edifícios que me rodeavam em criança. Sou gay e sempre fui. Nunca tive
dúvidas e nunca foi uma escolha. Ninguém escolheria alguma vez ser gay,
porque muito provavelmente isso traria uma vida de desafios como ter de
educar uma pessoa como José António Saraiva. E já agora, caso isto seja
novidade, também ninguém escolhe ser heterossexual.
Ir a Portugal com o meu namorado foi um passeio de redescoberta de um
país que sempre me trouxe muitas memórias. Desde memórias péssimas de
ser violentamente gozado na escola, a nível físico e psicológico, por
ser gay. Desde memórias óptimas a criar um grupo de amigos que nunca me
trataram de maneira diferente quando eu inclino a cabeça, ou mexo os
braços, ou pouso os pés no chão.
Tive a sorte de ter uma família acolhedora, mas conheço muitos casos
em que tal não acontece. Se há coisa que aprendi foi a não julgar os
outros. Acho que não há nada mais precioso na vida do que aprender com a
individualidade de cada um. Talvez seja por isso que tenha conseguido
ser tão bem sucedido tanto em Hollywood como em Silicon Valley.
E, apesar de ser gay, ajudei a criar imagens que marcaram o mundo.
Imagens que inspiraram adultos e crianças a acreditarem num mundo
melhor. Um mundo em que dois robots se podem apaixonar, ou dois
escuteiros se podem conhecer em crianças e viver juntos a vida inteira,
ou um mundo em que um astronauta encontre um melhor amigo num simples
cowboy. Sem falar de um rato que pode cozinhar… Estes não existem na
verdade, mas transmitem um ideal de um mundo em que eu acredito ser
possível viver. Em que cada pessoa é como é, e em que cada um de nós tem
a oportunidade de trazer algo mágico às pessoas que se cruzam na nossa
vida.
Não sei em que mundo o José António Saraiva vive, mas pela maneira
como publicamente julga os outros deve ser um espaço bastante triste.
Tenho pena de não ter estado naquele elevador, naquele momento. Pelo
menos, poderia ter olhado para ele, sorrido e, quem sabe, mostrar que o
Portugal de agora é um país muito mais acolhedor do que alguma vez foi.
Um país em que posso trazer o meu namorado e criar memórias novas para o
resto da nossa vida. Um país em que nos podemos casar como qualquer
outra pessoa.
Aqui na Califórnia, sinto-me em casa. Sinto-me em casa porque sei que
posso andar de elevador, e muito provavelmente vou conhecer alguém que
se calhar com apenas vinte anos criou uma empresa que está a mudar o
mundo. Ou alguém que se calhar inclina a cabeça de certa maneira, e me
faz sorrir por saber que pertenço a um mundo em que podemos ser
verdadeiros, genuínos e nós próprios.
E entretanto vou criando outros mundos imaginários. Que muito
provavelmente irão fazer sorrir os filhos, netos ou bisnetos do José
António Saraiva.
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