“If you concentrate on finding whatever is good in every situation, you will discover that your life will suddenly be filled with gratitude, a feeling that nurtures the soul.”
- Harold Kushner
- Harold Kushner
- Fala-me lá do teu blogue.
E eu pensei “se tivesse nascido nos anos 20, por mais loucos que tivessem sido, dificilmente perceberia”. Mas lá lhe falei. Assim com meias palavras, a projectar a voz para o lado como quem fala sem querer ser ouvido. Por regra o tema exalta-me mas com o avô senti-me levemente constrangido. Não que não me orgulhe disto. Aliás, por mais revolta que desperte nos anónimos, heterónimos e pseudónimos que volta e meia vêm aqui lembrar a bela merda de blogue que tenho, há que reconhecer que essa merda (bela ou não) me parece a única coisa digna que fiz até hoje.
Eu sei avô. A coisa não começa bem. Qualquer coisa que se chame blogue não lhe deve merecer grande crédito. Fotografar pessoas na rua também não. E acredito que fotografá-las por aquilo que elas vestem só consiga fazer parecer tudo pior. Mas no outro dia quando liguei para aí a avó, antes mesmo de lhe passar o telefone, disse-me que o avô se tinha emocionado a ouvir a minha voz na rádio. Fiquei meio sem jeito, sem saber que dizer. Eu sei que o avô era tramado com o meu pai e, para lhe ser franco, não é fácil imaginá-lo comovido. Também nunca vi o meu pai a chorar e, para lhe ser completamente franco, ele também não foi sempre dócil comigo. Mas reconheço que a disciplina com que se trata um miúdo fará dele mais homem em adulto. E a verdade é que não me imagino um doce de pai. Talvez nem o queira ser. E é mesmo assim, não é? Há sempre coisas complicadas entre um pai e um filho. Ser neto será sempre mais fácil.
Sabe, estas pessoas que eu fotografo, são sempre pessoas que me merecem um segundo olhar. Olho uma vez, olho uma segunda por reflexo e só depois as abordo. Por vezes é um processo tão rápido que nem o chego a interiorizar. Também percebo que tudo lhe soaria mais legítimo se eu olhasse para trás em busca duma forma feminina ou um pedaço de carne destapada em vez dum casaco, umas botas ou um chapéu. Vou-lhe dizer sobre o que é este texto. Sobre sentir-me na necessidade de lhe explicar a minha sensibilidade. E dizer-lhe que ela é também parte da minha virilidade. Mas é apenas com o avô que me sinto forçado a fazê-lo. Como se fosse o único homem a quem não tivesse provado que sou macho o suficiente. Porque no fundo é aos nossos ascendentes que sentimos mais necessidade de provar o que quer que seja. Sempre que me vê pergunta-me pelo mundo feminino e sempre que o vejo lhe respondo com evasivas masculinas. E verdade seja dita, foi com o avô que tive mais perto de ter a conversa das abelhas (ou das tartes americanas), esse diálogo confrangedor a que o meu pai teve a gentileza de me dispensar. Mas se o deixa mais confortável, deixe-me que lhe diga que quando olho para trás, vejo que sensibilidade e tesão andaram sempre de mãos dadas na minha vida. Que as melhores fodas foram sempre aquelas em que as palavras mais porcas me pareceram as mais ternas, e em que os abraços subsequentes ao derrame da minha virilidade me souberam tão bem quanto aqueles divinos dois segundos que precedem a ejaculação. Desconfio que nos tempos de hoje se exija a um homem seja tão proficiente a acarinhar uma mulher como a comê-la, que seja tão voluntarioso a apoiá-la quanto a defendê-la e tão dedicado a amá-la como a protegê-la. Eu sei que para o avô é importante ter um neto viril. Eu sou-o à minha medida e sem pretensão de o ser à imagem de mais ninguém mas confesso, gostava de o ser também à sua. Não me imagino a pôr com estas exigências com um descendente meu mas aquilo que um dia exigir àqueles que amo não tem que ser a mesma exacta medida daquilo que me exijo a mim. E a mim exijo impressionar o avô. Depois do pai, o avô. Mais que mulheres, amigos ou leitores dum blogue. O avô. Impressionar o avô
Pensar nesta foto e no exacto instante em que terá sido tirada. Pensar no que terá dito o detentor da objectiva antes daquele click que nem sempre é audível. Eu sou do tempo em que se ouviam os clicks e que o mundo fazia barulho. Em que havia flashes e alguém dizia ironicamente "Digam Queijo!". Eu sou desse tempo, dos antigos ouviram? Em que as fotos extraordinárias que havíamos tirado nas férias do verão, afinal eram miseráveis – agora as vemos - porque teriam sido corroídas por uma luz interior que se nos havia escapado. Eu sou do tempo. Do tempo dos meus avós que se abraçavam a mim com mais força do que com os seus filhos – também os meus pais - e que na altura das fotos, não se importavam que eles não aparecessem, porque sabiam que nós representávamos os seus filhos e já agora se não se importam, os meus pais. Eu sou do tempo. Do tempo em que todos éramos filhos e quase não havia pais quando se avizinhavam os avós. Sim, sou desse tempo - como está? muito prazer! - em que não sabíamos se teríamos ficado bem na fotografia e em que, precisamente por isso, nunca apagávamos nada, mesmo quando ficávamos mal na foto . Mas agora, neste tempo, todos ficamos bem. E se ficarmos mal, tudo se apaga num segundo, tudo se subtrai como se nunca tivesse existido. Esta foto é de outro tempo, em que as coisas não se apagavam com tamanha facilidade. Em que as coisas más resistiam , mas as coisas boas também, tal qual os carros da Volkswagen.
O meu pai dizia sempre que os carros da Volkswagen resistiam a tudo porque não-sei-quê da segunda guerra mundial, e eu , aqui dentro, queria que o meu pai fosse um carro da Volkswagen. Para que nunca desse problemas.Para nunca me acabasse.
Esta foto nunca se deixou corroer por essa espécie de maresia corrosiva em que todos habitamos. Agora, as fotos modernas parecem que vivem junto ao mar, que se que deixam esvair na água como se fosse tinta débil, nesse sal que sabemos ser corrosivo. Esta foto resistiu a tudo e a todos, tal qual um carro da Volkswagen. Quando a tiramos, nenhum de nós dissemos se podíamos olhar na objectiva a ver se estava bem, porque nós estávamos bem e era isso que mais importava. Hoje em dia, há pessoas que estão bem pior do que na foto. Naquela altura, nesta foto, todos éramos mais resistentes do que um qualquer carro da Volkswagen.