
Fala-se muito em justiça, nos tribunais, na Constituição, mas poucos são
os que falam da mais elementar das leis: a do desejo. Muito se diz
sobre o amor, a paixão, o dinheiro, como se todos fossem uma espécie de
equipa que antes de entrar em campo já venceu, mas poucos são os falam
sobre esta lei – a do desejo – como se esta não estivesse prevista no
código, como se não tivesse regulamentada, como se fosse omissa, tamanho
é o embaraço e o incómodo que tantas vezes provoca. Mas não, não há lei
que se lhe compare, porque em todas as outras há alíneas várias que
adiam os processos e os arrastam pelos tribunais. Na lei do desejo, a
arrastar, só se for pelo chão, pelas paredes, pela cama. Enquanto nas
outras há letras pequeninas e asteriscos minorcas que safam os bandidos à
luz de uma outra suposta interpretação e leitura, na do desejo não há
nada a fazer, não há segundas interpretações, encolhe-se os ombros,
abana-se a cabeça e começamos a desapertar os botões da camisa como quem
se vai entregar à justiça, já com as mãos esticadas e juntas, à espera
de algemas. Pobre gente, fala-se tanto da energia nuclear se como fosse
a fonte energética mais poderosa do mundo e ainda ninguém percebeu que
bastaria conseguir transformar em pó o desejo, para que as duas Coreias
se pudessem matar convenientemente. Por isso, o desejo segue os
princípios bíblicos e seguindo essa conduta é sempre culpado para que,
no fundo, nos inocente. De tal modo que não é primeira vez que chegados a
tribunal a juíza pergunta: Foi você que traiu a sua mulher? E outra
alternativa não restará ao réu, se não responder-lhe: Não fui eu dr.a
juíza, foi o desejo.
[Fotografia de Emma Hardy]