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quarta-feira, 5 de setembro de 2012

"A vida das Mulheres"



Visão
opinião
toda a gente tem uma
como os cús, toda a gente tem um
:)
raramente vejo a visão ou revistas do género mas ontem, sem livro para ler no metro, decidi levar emprestada uma visão e não que para meu espanto, li a crónica do António Lobo Antunes e dei comigo a pensar "raios, tenho de voltar a escrever!!" seguido do pensamento "merda, somos mesmo bichos complicados!"
 

 A vida das mulheres

Porque razão nós as mulheres não somos felizes, quer dizer até podemos ser felizes mas não somos felizes felizes e muito menos felizes felizes felizes, também não somos infelizes, é um estado de alma assim assim que o facto de termos uma família vai compondo, uma família, a casa paga, os electrodomésticos pagos, tudo pago 

 Podem ler o artigo completo AQUI


segunda-feira, 27 de junho de 2011

Como irritar os outros e ser feliz

eu sei é segunda-feira
mesmo com um fim de semana de calor, praia e corpos desnudos
muitos são os carrancudos que não estão felizes por acordarem para mais um dia
não é o meu caso que hoje estou com uma óptima disposição e pronta para abraçar uma longaaaa jornada.


Agora perguntem-se...."como irritar os outros e ser feliz"...esta miúda droga-se, ora pois bem....digamos que sim!
Como irritar os outros logo de manhã:
  1. Dizer "bom dia" com ênfase e um sorriso (consegue irritar até o mais calmo dos seres numa segunda-feira cinzenta como a de hoje)
  2. Querer pagar um café (0.60€) com uma nota de 20€ às 7 da manhã (sob o olhar reprovador da senhora ao balcão que tinha acabado de reclamar por ter poucos trocos)
  3. Reparar que o nosso comboio entrou na linha no momento em que pegamos no nosso café e então, delicadamente acelerar pelas escadas ....ah espera....isto só me deveria irritar a mim mas foi uma tentativa em vão
  4. Descer as escadas e entrar na linha a trotear de café na mão e saia esvoaçante no momento em que as portas apitam ("tás fodida já não entras") e o senhor pica ter sido um simpático e segurado a porta a tempo de eu entrar, para irritação da meia dúzia de pessoas que se encontravam ensardinhadas perto da entrada (bite me, entrei no comboio)
  5. entrar num comboio cheio de gente mal dormida, mal acordada, mal fodida, mal amanhada, mal encarada, meia a dormir e eu COM UM CAFÉ QUENTINHO E CHEIROSO, enquanto 75% dos consumidores de café presentes na carruagem ainda não tomaram a sua dose matinal da droga acima referida.
  6. ser a ultima a entrar no comboio e mesmo assim, arranjar um lugar a meio da carruagem que uma senhora decidiu ignorar.
2º feira neh....
é chato!
nas palavras do meu palmo de gente 
"tás-me irritar"

sexta-feira, 9 de julho de 2010

De l'amour por António Lobo Antunes


Se calhar as minhas grandes paixões passaram-se entre os doze e os quinze anos: por cromos de artistas de cinema que vinham nas embalagens das pastilhas elásticas, pela tia de um colega da escola que me passou a mão no cabelo, por meninas que patinavam no Jardim Zoológico e não me ligavam nenhuma, por uma senhora da idade da minha mãe que encostou a perna à minha no eléctrico, por uma outra, mais velha ainda, que me pegou na mão no cinema. No intervalo, loiríssima, fumou um cigarro de filtro doirado sem olhar para mim a fim de que não pensassem que namorávamos, visto que os assuntos sérios querem-se com recato e eu ainda não tinha dito nada aos meus pais, tornando o noivado oficial, mas a seguir ao intervalo, no escuro, discreta e suave, pegou-me na mão outra vez, largou-a para me acariciar o joelho
(eu usava, imperdoavelmente, calções)
demorou-se no princípio da coxa, com pressões várias e lentas
(sentia-lhe os anéis)
regressou à mão, entrelaçou os dedos nos meus, fez-me cócegas, com as unhas, na palma, o polegar passeou-me para baixo e para cima pulso adiante, mal o filme acabou levantou-se e nunca mais a vi. Quer dizer, vi o cabelo loiro a entrar num táxi e chovia. Não há nada mais triste que um amor sincero terminado à chuva. O reflexo das luzes nas poças de água quase me impedia de respirar de dor. Levei para aí um ano a recompor-me. Se não foi um ano foi uma semana, o que vem a dar no mesmo, inconsolável por pensar que teríamos sido felizes. Não tenho a menor dúvida que teríamos sido felizes, são coisas que se percebem. E, por estranho que pareça, ainda hoje o reflexo das luzes nas poças de água me dá uma espécie de melancolia mansa.

Depois da senhora mais velha que a minha mãe, para aí com quarenta anos que é número que dá vertigens, recuperei graças às gémeas Kessler, alemãs ou suíças ou holandesas, é tudo igual, que cantavam, vestidas do que eu achava serem fatos de banho, na televisão. Logo duas, de pernas compridíssimas
(quatro pernas)
para trás e para a frente, e penachos na cabeça cintilando milhares de diamantes e pérolas. O problema era que não conseguia decidir-me, escolho a da esquerda, escolho a da direita, tinham o mesmo sinal na mesma bochecha, o mesmo sorriso inalterável, a mesma cintura, os mesmos movimentos, desciam a mesma escada na mesma cadência, ponderei
- Fico com as duas?
este pensamento poligâmico, dito ao prior na confissão, traria na volta uma fiada interminável de Ave Marias de penitência e uma tarde inteira na igreja a pagá-las, para além do receio que o prior, amigo do meu avô, o fosse escandalizar com as minhas poucas vergonhas. Já estava a vê-lo chamar-me ao escritório, sentar-se à secretária, ordenar
- Chega aqui
eu de pé do outro lado, à espera, enquanto o meu avô, terrível, em silêncio e de pálpebras descidas, mudava o filtro da boquilha, endireitava objectos numa indignação lenta, passava uma folha do calendário de argolas que demorou um século a virar, fitou-me outro século numa mudez de mau agoiro e vociferou por fim, pronunciando cada sílaba numa martelada de ultraje
- Com que então as duas gémeas Kessler ao mesmo tempo, seu bandido?
enquanto alongava o pescoço para o corredor na esperança que a minha avó não desse conta da infâmia e corresse a prometer novenas para me salvar da eternidade de labaredas e tridentes. Obrigado a deixar as gémeas Kessler, que provavelmente agonizaram de desgosto sob os penachos, passei um longo período de reflexão abstinente até começar a comover-me, aos poucos, com as nádegas da cozinheira, que cheirava a pezinhos de porco de coentrada da mesma forma que os mártires cheiravam a santidade. Ignorava que os pezinhos de porco fossem afrodisíacos
(sabia lá o que significava afrodisíaco)
mas pelos vistos não existia pai para aquilo. Joguei-lhe a palma ao rabo e, ao voltar a cabeça, estava a minha outra avó, na porta da cozinha, de queixo caído. Como era uma pessoa de profundo sentido político, um Tayllerand de saias, em lugar de indignações e ralhos propôs-me trocar as saliências posteriores da cozinheira por conta aberta na pastelaria quase ao lado da casa dela, que exibia na montra bolos de creme irresistíveis em que o creme tinha a forma de pintos de órbitas amarelas de fios de ovos e caudas de frutas cristalizadas. Cedi. Entre nádegas e bolos quem, normalmente constituído, não prefere os bolos? Após um momento de indecisão resolvi-me pelo açúcar em detrimento dos coentros. Só me indignou que, mal a cozinheira se despediu, a minha avó me fechasse a conta prevenindo que não queria um neto gordo. Tempos depois de a cozinheira se despedir a pastelaria fechou. Quem garante não ter sido a minha avó a mandá-la fechar? Se algum de vocês souber de uma pastelaria com bolos de creme em forma de pinto de órbitas amarelas agradeço que me diga: é que sinto vontade de me apaixonar outra vez.