segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Um Coração de Inverno


Estava um daqueles dias, dos que o primeiro pensamento que nos assalta de manhã ao acordar é algo na casa do “está demasiado frio para sair da cama”. Como se não fosse grave o suficiente ser segunda-feira e o meu humor matinal estar a níveis tão baixos como o do termostato. São momentos assim que me fazem pensar nos dias, bem distantes assim me parece, em que saltava da cama com uma energia renovada porque cada dia era uma nova aventura. Estava frio? Chovia? Tinha aulas às 8 da manhã? O que interessava!? Havia uma energia inesgotável, auto alimentada pelas novas experiências, pelos desafios, pela coisas magníficas, por mais simples que fossem, que iriam acontecer a cada novo acordar.
Podia recordar os dias de passeio, os de aventura ou descoberta, mas agora, no quentinho das cobertas, lembro-me de outro calor que descobri nas manhãs de inverno. Havia algo que me acordava nas manhãs em que, enganando meio mundo, saia de casa como se a escola fosse o meu destino e tomando o caminho errado, em mais do que uma maneira, chegava à tua porta. Recebias-me com um meio sorriso de sono e o cabelo despenteado mas num aconchegante abraço seguido de um beijo quente. O que me parecera um suplicio ao sair da cama momentos antes, era agora feito com desenvoltura e rapidamente me encontrava semi nua, alapada a ti enquanto o teu calor consumia cada extremidade do meu corpo, lentamente como naqueles momentos de sono em que vamos fechando os olhos com suspiros, até finalmente estarmos confortáveis adormecidos e no mundo dos sonhos.
Enquanto o mundo arrancava num turbilhão à nossa volta, nós sentiamo-nos inundados de calma e calor nos braços um do outro. Era essa tranquilidade, em oposição à loucura que sempre gerámos fora desses momentos, que dava balanço à nossa relação. Nem precisava de estar nua, enlaçada em ti, a suspirar entre beijos para me sentir bem, para me sentir completa, complemente em paz. Bastava-me estar contigo, adormecer contigo, sussurrar-te baixinho, rir-me e reclamar em conjunto pela má escolha musical da vizinha de baixo que tantas vezes embalou as nossas manhãs. A par das vezes que reclamamos, compactuamos outras tantas com o seu gosto enquanto cantarolávamos e dançávamos no andar de cima, completamente alheios a tudo e todos, especialmente aos deveres e aos locais onde ambos devíamos estar há horas.
Rio-me perante o misto de loucura e irresponsabilidade que cobre estas memórias e rebolo para o lado. em busca do teu calor, apenas para encontrar o outro lado da cama frio. Acordo sobressaltada, o sol entra pela janela para me dizer que estou atrasada. Está frio nesta manhã de Inverno e estou atrasada. Salto da cama num ápice, muito sem o entusiasmo anteriormente descrito. Há um frio latente em mim que afecta mais que as extremidades do meu corpo, aquelas que não são bafejadas pelo calor. Sinto uma frialdade no coração, uma que não consigo aquecer ou fazer derreter. Porque quem inventou “Mãos frias, coração quente” desconhece o que é viver exclusivamente de memórias de calor não aquecem o coração em pleno Inverno ou em qualquer outra estação.

Originalmente escrito e publicado a 5 de janeiro de 2015

Sem comentários: