sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Here's looking at you kid


Ficou surpreso quando a viu do outro lado da mesa. Estava ali sentado faz uma boa meia hora ainda não a tinha visto. Parecia quase impossível mas tendo em conta que não se tinha calado desde que chegará à porta do restaurante, era compreensível que aquela rapariga calada não lhe tivesse chamado à atenção. Via-se que estava totalmente perdida. Há sempre um ou dois perdidos num jantar destes. Há uma comemoração qualquer e junta-se um batalhão de gente, juntam-se amigos, conhecidos, junta-se trabalho e lazer. Sempre aparecem os que vêm porque mal podem esperar por cá estar, aquele que vem porque é mais uma noite de diversão ou aquela que pensa que irá parecer indelicada se recusar o convite. Quase que é capaz de apostar que ela se encaixa nesta última categoria. Está sentada a meio da mesa, entre uma cadeira vazia e um daqueles idiotas que chuta piadas umas atrás das outras num tom de voz demasiado elevado. Por momentos pensa que também lhe deve parecer um desses idiotas visto que conhece a grande maioria destas pessoas e ainda não parou um momento desde que chegou. 
Afasta esse pensamento da cabeça, porque lhe haveria de interessar a maneira como ela o vê, nem o seu nome sabe e nem sabe nada sobre ela.
Em escassos minutos está a trocar de lugares para se deslocar mais para o meio da mesa, sob a desculpa de ficar perto do anfitrião, seu amigo de infância mas também para ficar mais perto dela. Precisa de manter a conversa de circunstância em todas as direcções para assim continuar a admirá-la.
Todos pedem vinho ou cerveja mas ela pede um sumo. O idiota ao seu lado solta uma piada sobre ela se andar a portar bem e que se continua assim vai ser a condutora de serviço. Ela sorri e pela primeira vez, no curso do que seria uma grande noite, ele fica suspenso num momento. Aquele sorriso iluminou-lhe a sala e acabou por ofuscar todos os outros elementos. Naquele momento, aquele sorriso educado poderia arruinar muita coisa e sentia-se cada vez mais tentado em simplesmente meter conversa, apresentar-se, dizer algo divertido e arrancar-lhe um sorriso a sério, quem sabe até uma gargalhada.
Pela primeira vez em muitos anos, quem sabe desde que era miúdo estava nervoso, não sabia o que dizer nem como se meter com ela. Em sua salvação, sem o saber, o anfitrião apresentou-os. Chama-se Diana, que interessante, nome de uma Deusa, admite que ela combina com o nome. Sente-se um idiota mas valeu a pena porque ela sorriu embora nesse preciso momento o seu olhar se desvie e em vez de a sala se iluminar perante o seu gesto, é ela se ganha luz própria quando acena efusivamente a alguém. 
Sem saber bem de onde surgiu, senta-se ao seu lado alguém que nunca viu, um homem que preferia nunca tivesse chegado porque nesse preciso momento sentia-se capaz de o odiar. Roubou-lhe a pouca atenção que recebeu de Diana e quem sabe o que mais.
Então aquela era a sensação de lhe puxarem o tapete debaixo dos pés, a ideia de desequilibro.
Quem era aquele que chegou? Pior, quem era ele para Diana?
Infelizmente, algo que ele nunca seria.

Originalmente escrito em Maio de 2012
Publicado a 26 de Dezembro de 2014

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