segunda-feira, 26 de maio de 2014

Ponto de Viragem - Conteúdo de Todos Nós


Entro aqui todos os dias, numa pressa inerente a todas as manhãs que corro atrasada para o trabalho.
Entro, já o empregado me tira o café acompanhado de um bom dia e um "já viu como está o tempo?". Não vejo nada nem ninguém, são poucos os momentos e as capacidades cognitivas que tenho antes de um café matinal.
Hoje, atrasada e sem vontade de me arrastar para o trabalho, entrei e pela primeira vez em muito tempo, sentei-me para beber um café.
Foi instantâneo o momento em que me assaltaram memórias do nosso primeiro encontro a sós, naquela mesa lá ao canto, onde me esperavas, longe dos teus e dos meus amigos.

Fiz-te esperar meia hora por mim, sem querer, mas desencadeei uma reacção de surpresa enlaçada em alívio quando me viste entrar pelo café seguida de uma explosão de riso quando percebes o meu embaraço.
O meu atraso em nada era comparado com a vergonha que sentia ao chegar com a saia que trazia vestida toda rasgada. A correr para o comboio, de saltos, levei a perna mais à frente do que devia e abri uma racha no tecido que roçava o indecente.
Disseste-me para não me preocupar, que comprimento me favorecia a abertura da....saia e as vistas dos que por mim passavam agradeciam o espectáculo.
"Ordinário" disse, mas sabia ser verdade e o tempo que estive no café contigo senti que tinha os teus olhos pregados em mim e na minha tentativa vã de disfarçar a má impressão que podia estar a causar aos teus olhos por parecer tão trapalhona.
Pouco sabia, disseste-me tu mais tarde, que nesse mesmo momento já magicavas nos teus pensamentos que não haveria acção capaz de quebrar a atracção que sentias por mim. Creio que ambos percebemos nesse dia que o que quer que surgisse, era para nos fazer viver no momento, sem pensar no amanhã.

Desde então, corremos pelos dias, semanas e meses que nos separavam do final das aulas, como dois loucos, entre livros, copos e qualquer lugar que nos desse a privacidade de um momento a dois. Saltávamos do café para a cama em minutos e de uma passa num cigarro a um beijo em segundos.
Roubámos momentos, partilhámos confidências e transformámos dois amigos em amantes. Aos olhos dos outros mantivemos sempre as aparências, se em privado tudo à nossa volta ardia, em público fomos sempre só bons amigos.
Mas por entre gargalhadas e músicas que compõem uma playlist invejável, amámos sem culpa, sem falsas promessas. Amámos tantas vezes sem realmente nos termos amado sequer.
Foi a cumplicidade que nos aproximou, a sintonia que nos manteve próximos mas as diferenças extremas de carácter e de expectativas que nos mantiveram sempre no nosso lugar. Sabíamos o que éramos, como hoje sabemos o que já não somos, pelo menos um para o outro.
Fomos um ponto de viragem e hoje rumamos longe, com destinos desconhecidos mas continuamos a roubar sorrisos pelo outro significado que demos à palavra amigo.

ElsaR

1 comentário:

EfeitoCris disse...

é lá!
GOSTO!
mas que saudades do Kurt