quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Recordar é sofrer

Data original de escrita: 12 de Julho de 2012


Mais um final de dia, mais uma viagem de regresso a casa. Era uma óptima ocasião para pegar num livro e desligar. A viagem ainda demorava uns bons 40 minutos e incorria na possibilidade de adormecer no caminho e falhar a saída caso não encontrasse nada para me distrair.
Embrenhei-me na leitura para afastar o barulho dos outros passageiros, que aumentava a cada paragem quando fui desperta por um perfume familiar. Senti-me a encolher por dentro enquanto involuntariamente olhava à volta em busca da pessoa que o usava. Era um gesto involuntario, era uma reacção que o meu cerebro fazia à traição. 
Os cheiros despertam os sentidos e este ainda hoje me arrebata o espírito e me assombra o pensamento, mesmo quando já se passaram 4 anos. Há memórias que são flashes de momentos, com odores, sabores e sons.
Foi com surpresa que percebi que o perfume pertencia, naquele momento presente, ao senhor de meia idade que se sentou ao meu lado. Dei comigo a rir sozinha, pensei que era bom não ser um homem novo ou teria cometido a loucura de me atirar a ele para regressar a casa com aquele perfume na pele, embrenhada nas memórias de tempos em que conheci a felicidade, o desejo e a dedicação de amar alguém.
Hoje em dia, desses tempos restam apenas as memórias, as fotos e o frasco de perfume intocado na cómoda do quarto. Dele não resta mais nada.
Porque pior que perder o grande amor da nossa vida é ver o nosso amor perder a vida.
Se custa perdê-lo para outra pessoa, imaginem o que é saber que nem eu, nem outra, iremos voltar a sentir o perfume da sua pele, o seu toque ou o seu calor na cama.
Pior ainda, é abrir os olhos para a carruagem do comboio, ao lado do perfume que representa quem se ama, ao lado da pessoa errada e saber que a nossa única solução é levantar, sair e seguir em frente, para mais um dia que nos leve ao momento em que tudo irá passar, porque tudo passa, tudo eventualmente acaba por passar.

ElsaR

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