sexta-feira, 18 de maio de 2012

"Tenho o vício de ti"

 
São raros os dias em que não me sinto impelida a me esconder de pessoas que conheço, para me camuflar no meio da multidão que se acotovela na plataforma da estação só para não ter de falar a alguém do passado, alguém conhecido, com quem me sinto obrigada a trocar um educado cumprimento só porque tem de ser, só porque um dia fomos apresentados ou porque é vizinho da minha mãe e viu-me meia dúzia de vezes.
Sinto-me antisocial em dizer isto mas faço-me de distraída quantas vezes forem precisas para evitar cumprimentos vagos que por vezes dão abertura a conversas de circunstância sobre o tempo, a troika ou "o raio dos comboios que andam sempre atrasados".

Por fazer o meu caminho como uma idiota distraída acabo por não reparar em quem não quer reparar em mim, até hoje, no momento em que, um passado tão recente e em processo de esquecimento, caminha no mesmo sentido que eu. Embora pense que o faz de modo disfarçado percebo que acelera à minha frente num passo que transmite a mesma ideia que eu quando me escondo das pessoas que conheço e que pretendo evitar "se não te vir, não te tenho de falar".

Um sorriso prende-se nos meus lábios, um dos tristes.
Reconhecer o que nos faz mal deve ser um dos primeiros passos para a cura de qualquer que seja a nossa obsessão ou vício. Eu não sei precisar, não sou fã da área de Auto Ajuda mas sempre fui uma mestre na arte de me massacrar com o que me faz mal, com o que me dá a volta à cabeça.

Vejo-o a descer as escadas do metro como se este fosse o ultimo comboio do dia. Sei que aquele andar acelerado, é apenas uma maneira rápida de o cérebro ir contra o que o corpo pede.
Disse-me um dia "tenho o vicio de ti", ri-me, "parece o título de uma música", ele olhou-me tão sério e nesse momento senti que tudo escapou do meu controlo.
 Estamos tão perto mas faz semanas que não o vejo. Sei que a minha presença o distrai, sempre distraiu. Sei que quanto menor a distância mais impossível fica de resistir ao impulso de me tocar, de passar a mão no meu cabelo, de me fechar num abraço e quem sabe, num acto de loucura, roubar-me um beijo.
Ambos sabemos o quanto a proximidade pode arruinar os limites impostos, e por vezes, nem a distância que nos esforçamos para manter é suficiente para impedir que, a qualquer momento, se sucedam nas nossas vidas eventos que as destruam por completo.
Parece drástico, mas o desejo isolado da razão tem apenas dois caminhos, o da satisfação pela destruição e o da auto comiseração. Estamos ambos neste última página, a de sentir pena pela situação que criamos, faz quase um ano. O meu namoro de 2 anos e o seu casamento de 5 não combinam com os pensamentos que nos assaltam, nem com a vontade iminente de nos consumirmos quando os nossos olhares se cruzam, os nossos braços se tocam naquela sala minúscula onde mensalmente o Director decide reunir todas a equipas para aquilo que ele chama "um incentivo". Não me recordo de uma única vez que tenha conseguir prestar atenção, pelas vezes que não tiravas os olhos de mim e pelas outras em que não os conseguir desprender de ti.
Saber-te no mesmo edifício já custa, quanto mais na mesma sala que eu, por vezes, por casualidade do destino, exactamente ao meu lado.
Bendita altura em que mudaram a vossa equipa para outro andar, foi-me mais fácil direccionar a minha atenção para o trabalho e agora são raras as vezes que nos vemos ou que temos de falar um com o outro e eu penso que sim, que ajuda, que como diz o outro "incentiva".

Ainda absorta neste pensamento, na recordação do calor da tua pele, vejo-te entrar na carruagem no exacto momento em que a porta se fecha. Sinto que do sorriso, por mais triste que fosse, já nada resta. Fica no olhar o que não posso dizer em voz alta, nas palavras que de qualquer maneira me custam a sair.
No momento em que o metro arranca olhas para mim por uma fracção de segundo. Compreendo no teu olhar o que tenho medo de reconhecer em mim, nos meus pensamentos. Sei que se continuar a olhar para ti, a pequena chama que existe entre nós vai pegar fogo a tudo em seu redor, vai evoluir de uma atracção para algo que não poderemos deixar que aconteça e que se suceder, não iremos querer controlar.
Fechas os olhos e agarraste ao poste como se de uma bóia de salvação se tratasse. E eu fico.

Dizem que tudo passa, e isto sim, um dia esmorece e um por fim passará. Também um dia será passado, e veremos diminuir este vício de ti.
 - ElsaR

2 comentários:

Eduardo Cardoso disse...

Adorei!! é mesmo isto! parabens

Elsar disse...

Obrigada :)