segunda-feira, 16 de abril de 2012

Anda comigo ver os comboios


Tinha perdido a paciência para compreender o tempo, que estava em modo TPM, com altos e baixos de humor, ora calor ora frio. 
Toda a gente que sai cedo para trabalhar sabe que tem de estar preparado para os dois cenários, mesmo durante os meses de verão. Hoje foi outro dos dias em que o tempo me trocou as voltas e lá vinha desesperado no comboio, ansioso por tirar a gravata, a fazer os possíveis para aguentar a sensação incómoda após fim de semana descontraído. Ainda não sou grande perito a ajeitar a gravata e não queria dar um ar desleixado logo às nove da manhã. 

Observando as pessoas à minha volta, rapidamente percebi que não era o único a quem o tempo passou a perna. Mesmo à minha frene, ainda esbaforida de uma corrida rápida para o comboio estava a única pessoa que parecia estar viva naquela carruagem. Talvez aos meus olhos, aquela morena de salto alto era a única peça que se mexia e que merecia a minha atenção no meio da multidão. Rosada e ofegante, abriu o fecho do casaco. Senti que os meus olhos desciam em sintonia com os seus dedos e não consegui suprimir um sorriso quando ela, toda atrapalhada, tentava soltar o lenço que se prendeu no fecho. É curioso como um gesto tão simples pode despertar a atenção de alguém. 

Completamente alheia ao mundo em seu redor, principalmente ao meu olhar observador, debateu-se com o fecho num tom de aborrecimento e vergonha, o que apenas lhe garantiu mais graça e cor ao rosto. Sei que notou finalmente na minha presença no preciso momento que completou a sua missão, com um sorriso triunfante, já eu estava perdido num vislumbre do seu pescoço, no contorno do seu decote e os meus olhos percorriam o que o casaco escondia até á cintura. Soube que tinha sido apanhado, provavelmente a suster a respiração, no momento em que os nossos olhos se cruzarem e lá estava ela, de sobrancelha arqueada a tentar ler a minha expressão que era como uma via verde para os meus pensamentos. 
 O calor e o incómodo da gravata reapareceram e desta vez nada tinha a ver com o tempo. A resposta rápida e quase involuntária, além de corar, foi fixar os olhos nos sapatos e esperar que o aquele momento estranho terminasse.

Não me custava nada ter um pouco de coragem, não morria por assumir a verdade. Sim, ali estava ela e eu estava a contemplar os seus movimentos e beleza, talvez um pouco perdido nos meus pensamentos mas que mal tinha isso.

Quando levantei os olhos do chão já ela não lá estava, já o seu lenço esvoaçava na plataforma, acompanhado por um sorriso cúmplice de quem aceita que nem todas as oportunidades são as certas mas que por vezes temos de arriscar, num misto de estupidez e coragem ou ficaremos eternamente a ver passar comboios.

ElsaR

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