sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A um porto azul :)

centenas de blogs que tenho encaixados no Reader mas os meus olhos demoram-se sempre aqui

por coisas como esta 

Let my love

Estava nervoso.

Respirou fundo e pesado e abriu-lhe a porta do quarto.

A primeira coisa que reparou foi no pé de fora dos lençóis.

Ela estava enrolada e desconjuntada nos lençóis que puxara para fora do sítio, dormia selváticamente de barriga para baixo.

Esqueceu-se do nervoso perante imagem de tamanha candura.

Lentamente, com o cuidado de não fazer barulho, subiu-lhe o estore.
Parou a meio.

Era luz suficiente para a ver bem, para por ela ser visto e para o que ia fazer.

Com cuidado e respeito... e também instinto de sobrevivência, retirou da cadeira da secretária o acumular da uma constante preguiça de guardar a roupa e ...

E fitava a camisola que ela vestira na passagem de ano...

E depois ele é que era um granda porco e desmazelado e...

Ela roncou.

Forte, muito forte, como se recapitulasse uma ideia.

Fechou os olhos e apertou a camisola com força contra a boca, tentando não rir.

Foi invadido pelo perfume, imerso no toque da sua pele com a lã.

Sorriu.

Puxou a cadeira para ao pé da cama.

Ia deixar-se levar pelo reflexo do sol no cabelo dela, na pele.
Ia-se deixar conquistar pelos dedos da sua mão suaves e tranquilos sobre a almofada ou na memoria destes que o arrepiava quando ela deslizava os mesmos pelo seu cabelo...

Ia mas reparou no bonito -  não muito grande ao menos isso - fio de baba que lhe escorria pelo canto da boca.

Odiou-a em segredo pelo momento e todo o glamour da cena o ter feito gostar um pouco mais dela.
Com mais força.
Até a dormir e a manchar a almofada...
Que cabra.

Inspirou, puxou a guitarra e expirou depois de se sentar.

Ia correr mal, só podia.

Se calhar... se calhar podia esperar que ela acordasse e...

E,.. todas as vezes que lhe ela pedira para a acordar.

Todas as vezes que acordara com ela aninhada no seu peito dentro da sua cama, já sem roupa e a dormir profundamente.

E aquele pensamento mágico que ela o podia ter morto e não tinha dado por isso...

Concentrou-se.

Colocou os dedos e tirou-os das cordas.

Respirou e voltou à posição inicial.

Ela roncou.

Deslizou a mão direita suavemente e aguardou.

Dedilhou a flutuação da melodia devagar tímido e a medo.

Tinha tocado a música pelo menos umas 40 vezes na vespera.

Deixou-se ficar na introdução, repetindo-a aguardando pelo momento certo...

A qualquer momento...

A qualquer momento...

E ela, sem abrir os olhos, sem mexer o corpo... sorriu.

- The people keep repeating... That you'll never fall in love...

E ela sem abrir os olhos espreguiçou-se. Esticou os braços e arqueou as costas.

- When everybody keeps retreating... and you can't seem to get enough...

Viu-a abrir os olhos, girar o corpo dentro dos lençóis deitando-se de lado sem perder o sorriso



- Let my love open the door... let my love open the door...

Reparou que ela o acompanhava baixinho... não cantava sozinho...

- Let my love open the door...

... to your heart

When everything feels all over...
Everybody seems unkind...

Destapou-se.

Teve que se concentrar perante a imagem do seu corpo... do teu seu cabelo tão perfeito e desalinhado.
E da ideia de ter ali a pele dela tão quente e...


-I'll leave you a four-leaf clover ...


Enganou-se, era give e não leave... mas a culpa era dela.

- Take all the worry out of your mind...

Let my love open the door...
Let my love open the door...
Let my love open the door...

To your heart...
To your heart...

I have the only key to your heart...

Viu-a primeiro sentar-se sobre os calcanhares.
Viu-a depois morder o lábio e erguer-se ficando de joelhos.
Começou por sacudir somente as ancas, depois o cabelo e por fim todo o corpo.

- I can stop you falling apart
Try to say in my own way...
Somebody give me the chance to say ...
Let my love open the door
It's all I'm looking for..

Release yourself from misery
Only one thing's gonna set you free...

Ela levantou-se, saltou  ficando de pé em cima da cama. Aguardou a entrada do acorde para esticar o braço e indicador no timing certo para cantar e entrar com o refrão

- That's my love...

Oh that's my love...

Let my love open the door...
Let my love open the door...

Viu-a descer da cama sem parar de dançar, sem perder o sorriso.

- Mas tu... mas tu não sabes tocar guitarra!


Segurou-o com as mãos, suave e carinhosa.
Beijo-o.

Sentia o sorriso dela contra a sua boca a meio do beijo.
Viu-a cair sentada na cama à sua frente.
Estava confusa, trocada das ideias mas notoriamente feliz.

- When tragedy befalls you...
Don't let them bring you down...
Love can cure your problem...
You're so lucky I'm around...

Foram horas e horas a lutar com a guitarra para ter um momento, este momento...

E fora tudo por causa de um momento...

O momento em que a vira sacudir a anca para a esquerda primeiro, para a direita depois ao som do Eddie Vedder sozinha no quarto...

Momento em que ela não sabia que a via do corredor.

Não sabia que primeiro fora a demanda para descobrir qual era a música- perguntar qual era tinha tirado a magia.

Depois fora a cruzada de aprender a tocar guitarra.
Depois ganhar a coragem e todas as outras coisas que tiveram que ir ao sítio para poder estar ali, antes dela acordar e dizer-lhe...

Let my love open the door...

Let my love open the door...

Let my love open the door...


...To your heart

Nota - A música, como não podia deixar de ser.

para não falar que ADOREI ESTE POST

Ainda bem que o moço voltou a escrever!

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