sábado, 3 de dezembro de 2011

Olá Dezembro

 Bairro Alto, Lisboa, 1969.
Fotografia de Eduardo Gageiro in Lisboa no Cais da Memória: 1957-1974, p. 73.

Venha quem vier, vá ela onde for, terá sempre uma certeza e uma vez mais confirma-a enquanto caminha pela Avenida abaixo em direcção aos Restauradores. Existem no mundo sítios magníficos, mas nenhum deles é Lisboa. Esta luz, esta paz não existem em mais lado nenhum. Até nem se importa de enfiar os saltos na calçada das poucas vezes que a mania a faz tirar da caixa qualquer par que não seja raso.
Todos os dias caminha um pouco pela cidade e hoje não foi excepção. Saiu mais tarde que o costume, com a chegada do fim do ano é comum a hora de saída nunca ser certa e hoje, uma sexta-feira de Dezembro que já caminha a passos largos para o Natal, não foi excepção.
Haviam paragens quase obrigatórias no caminho para casa, consoante os vícios a que se dedicasse naquele dia. Hoje foi invadida pela nostalgia quando se viu envolvida no fumo das castanhas e no seu inebriante cheiro, apenas reconhecido por um verdadeiro amante (e viciado).
Além de achar a quantia exorbitante, pensou consigo mesmo que era só desta vez e não hesitou, em se dirigir ao sr. que as vendia, afinal também eram quase horas de jantar e ainda tinha de ir inventar qualquer coisa quando chegasse a casa.
No mesmo instante que o senhor acabava de encher um pacote duas mãos esticaram-se em simultâneo na sua direcção. Pelo olhar assustado do vendedor, ambos os clientes estão com "ar de quem ia com muita sede ao pote". No instante em que tomaram consciência da presença um do outro já o vendedor dizia "os senhores é que sabem, é que já só tenho este". Ele amavelmente cedeu, ela orgulhosa nunca iria aceitar, ele insistiu mas acabou por ser a proposta de partilharem e dividirem o custo que seguiu em frente. 
Sabia que nunca na vida tinha sugerido tal coisa. Era quase como que se estivesse a fazer aquele perfeito desconhecido utilizando as castanhas como desculpa mas, inicialmente, a sua única motivação era mesmo comer castanhas (e não gostar de dar o braço a torcer).
Apesar do seu ar cuidado, de fato e gabardina, convidou-a a sentar-se num degrau da estação do Rossio para que pudessem apreciar aquele pequeno petisco. Verdade que, dentro de mais 100 metro em qualquer outra esquina da baixa, estaria outro vendedor de castanhas disposto a vender todas as dúzias que tivesse disponíveis mas não existia neles qualquer interesse em procurar mais, queriam apenas sentar-se e apreciar aquele acaso que junta dois desconhecidos que apenas sabiam serem dois amantes de castanhas.
Por entre o remexer do saco, o som crocante da casca e a ocasional pausa para mastigar, surgiram as perguntas clássicas de quem ainda agora aprendeu o nome do outro. O quê, onde e desde quando vai surgindo com naturalidade de quem parece se conhecer de longa data, a conversa fluiu para além do que comem, do que fizeram hoje ou do que planeiam fazer este fim de semana. 
Parece estranho mas pelo meio da conversa as castanhas arrefecem à medida que o tempo passa, eles se distraem e a noite se instala.
Rapidamente e com o frio por desculpa, os degraus da estação dão lugar a uma mesa num restaurantes uns metros mais à frente. Ela ainda não cria que ainda há meia hora atrás esta pessoa era um total desconhecido, com quem provavelmente nem nunca se cruzou e agora aqui estavam eles, numa conversa sem fim à vista, a cruzar olhar sob ementas e a decidir que vinho pedir para o jantar.
Se Dezembro decide terminar com estas surpresas, ela agradece. Parece que ainda não tinha pensado no que queria para este natal e a "prenda" à sua frente parecia ser uma boa opção, até porque este ano não se tinha portado nada mal.
-ElsaR

(Tiago Rebelo queimou-me o cérebro, agora escrevo como ele , com o "ele e ela". Pior é que começo razoavelmente bem mas nunca acabo, não sei acabar....)

1 comentário:

Shelyra disse...

Gostei :) e espero que haja uma continuação.
Aposto que sabes acabar, sim. *