segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

"Lista de espera"

 Por:Tiago Rebelo, Escritor (breveshistorias@hotmail.com)
Encontram-se na sala de embarque, ambos em lista de espera para um voo cheio. Eu cheguei primeiro, declara ele. Como chegou primeiro?!, exclama ela, indignada. É simples, explica-lhe, cheguei ao balcão primeiro e apresentei o bilhete. Disparate, reage ela, estamos em igualdade de circunstâncias. Ah, sim? Então, como resolvemos isto?, pergunta ele, dirigindo-lhe um sorriso cínico que a deixa ainda mais irritada. Tiramos à sorte, dispara ela, a voz sai-lhe com a entoação perfeita de quem diz o óbvio.

Calma, senhores, interrompe-os a hospedeira incrédula, ainda temos dois lugares vagos e, se não aparecer mais ninguém, podem ir os dois. Esperam cada um para o seu lado. Ela, acabrunhada, virada para a janela panorâmica que deixa ver a pista. Ele, voltado para a sala, rezando para que não venha mais ninguém. Finalmente, a hospedeira informa-os de que podem entrar.

Não há lugares marcados e os dois últimos livres ficam lado a lado. Ele olha para ela, encolhe os ombros, ela suspira. Ele faz-lhe sinal com a mão para a deixar sentar-se primeiro. Prefiro este, diz ela, apontando para o lugar da coxia. Eu sou maior, argumenta ele, as minhas pernas não cabem no meio. Ela faz um gesto que significa que não vai discutir mais e esgueira-se para a cadeira do meio. Obrigado, agradece-lhe num tom conciliador. Senta-se, alarga a gravata, desaperta o botão do colarinho. Preciso mesmo de estar em Lisboa hoje, afirma, enquanto aperta o cinto de segurança com gestos precisos. Ela, às voltas com o seu, furiosa por não ser tão destra, ergue as mãos num silêncio tenso quando ele a tenta ajudar. Ele recolhe as suas, cruza os braços. Não lhe ocorreu que eu também possa precisar de estar em Lisboa hoje, ouve-a dizer entredentes.

O avião corre pela pista, ergue-se no ar. Fazem a viagem em silêncio. À chegada, deixam o aparelho e, como não têm mais do que a bagagem de mão, dirigem-se directamente para a saída do aeroporto. Apressam-se ambos para a praça de táxis onde chegam ao mesmo tempo. Só há um disponível, mas ele está à frente. Abre a porta do automóvel, vira-se para trás, surpreende-a a olhar para o relógio aflita e sente-se penalizado. Podemos partilhar o táxi, se quiser, oferece.

Não é preciso, eu espero, responde orgulhosa. Venha lá, insiste com boa-disposição, deixo-a escolher o lugar. Ela encaixa a piada, dirige um olhar de relance para o ar a sorrir, encolhe os ombros e entra no carro. Quando o táxi arranca ele admite que foi indelicado com ela, mas não sou sempre assim, diz. E depois apresentam-se e põem-se a tagarelar, ele a perguntar-se se irá conseguir o seu número de telefone, ela a pensar que afinal ele até é simpático.

afinal não sou só eu que deixo as minhas pequenas histórias com fins inconclusivos, com ar mal amanhado :P

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