segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Conteúdo de todos nós


Naquele momento sentiu que quebrou as amarras de 5 anos de anulação pessoal.
Vivia para alguém que mal olhava para ela. Por vezes sentia que não era nada mais que a extensão da mãe dele, apenas com o bónus que partilhavam a mesma cama.
Foi uma ideia que surgiu num ápice. Um dia acordou de manhã, enquanto o despertador tocava pela terceira vez e ele rebolava já atrasado na cama. Vestiu-se, saiu para trabalhar e quando chegou à hora de almoço não foi beber café ao sítio do costume. Quase que em piloto automático, entrou em casa e arrumou tudo o que era dela e saiu sem olhar para trás. Aquele deserto de sentimentos, aquele sufoco estavam a mata-la dia após dia. Esse momento tinha sido o fim mas também o início. Nesse mesmo ano soltou as amarras e esfolou-se para viver tudo o que se privou nos anos em que se dedicou a ele e a construir uma relação onde já não havia amor, apenas comodidade.
Esse ano foi a sua perdição, ainda hoje pensa que foi a altura em que ganhou direito a uma suite privada no inferno. Trocou a alma pela vida que perdeu nos anos anteriores e revestiu-se do que sempre quis ser, secretamente livre. Aparentava ser a melhor das filhas, a mais exemplares das trabalhadoras mas os seus tempos livres escondiam o que o seu intimo empurrava cá para fora. Viveu meses de má vida, de experiências, de excessos, álcool, drogas, sexo, de testar limites e de atingi-los. Reconhece hoje a olhar para trás que nesse ano de loucura vivia sob uma capa mágica, era como se ninguém a conhecesse realmente. As companhias mudavam frequentemente, os homens ainda mais e a única constante era a vida de fachada que levava, o trabalho, a família e a rotina de circunstância nas horas de expediente.
Mas todas as vidas têm fases e esta foi apenas uma delas que teve um principio e um fim, e que terminou como começou.
Naquele momento sentiu que quebrou todas as barreiras, vivia para ela mesma e não se arrependia. Sentia que não devia nada a ninguém e sorriu.
Tinha acordado quanto os primeiros raios de sol iluminavam o soalho de um quarto que lhe era desconhecido. Olhou por cima do ombro e viu um corpo nú por entre o lençol. Lembrou-se de um sorriso, de um elogio, das mãos que lhe agarram os caracóis mas não se recordava de um nome para dar à cara que dormia ao seu lado.
Como no primeiro momento, levantou-se e saiu porta fora. Era domingo e caminhou até casa. Não devia nada a ninguém a não ser a si mesma, e a divida de ser feliz, só ela a podia saldar. 

- ElsaR.

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