quarta-feira, 3 de novembro de 2010

"Que o sangue me devora" :)


Não te amo, quero-te: o amar vem d’alma.    
E eu n’alma - tenho a calma,    
A calma - do jazigo.    
Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.    
E a vida - nem sentida   
 A trago eu já comigo.    
Ai, não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero    
De um querer bruto e fero    
Que o sangue me devora,    
Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.    
Quem ama a aziaga estrela    
Que lhe luz na má hora    
Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,    
De mau, feitiço azado    
Este indigno furor.    
Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto    
Que de mim tenho espanto,    
De ti medo e terror...    
Mas amar!... não te amo, não.

Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'

desculpem mas hoje não comi sobremesa

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